Delegação recorde marca presença em Lisboa enquanto mercado global de VC cresce 38%
O Brasil desembarcou em Lisboa com força total. Cerca de 380 startups brasileiras chegaram a Portugal para o Web Summit 2025, que ocorre entre 10 e 13 de novembro, formando a maior delegação do país na história do evento. Não é apenas um número: é um termômetro do amadurecimento do ecossistema de inovação brasileiro e um sinal claro de que o país está pronto para disputar espaço no mercado global de tecnologia.
O timing não poderia ser melhor. No terceiro trimestre de 2025, o mercado global de capital de risco atingiu aproximadamente US$ 97 bilhões em investimentos — um aumento de 38% em relação ao ano anterior. É o melhor desempenho trimestral desde 2021 e marca o quarto trimestre consecutivo em que os investimentos superam US$ 90 bilhões. O “inverno do capital de risco” de 2022-2023 ficou para trás.
Números que impressionam
O Web Summit 2025 promete receber mais de 70 mil pessoas, incluindo 2.500 startups expositoras, 1.000 investidores e 900 oradores. A delegação brasileira não é apenas numerosa — ela é estratégica. Dentre as 380 startups, 151 foram selecionadas pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), com 35 da região Nordeste.
O Brasil abriga mais de 20 mil startups, e o Nordeste responde por 24,7% delas, segundo dados do Observatório Sebrae Startups. A região é a segunda maior concentração do país, atrás apenas do Sudeste com 35,8%. Essa descentralização reflete um ecossistema em expansão e mais maduro.
No ano passado, a participação brasileira no Web Summit gerou mais de 15 milhões de euros em negócios. A expectativa para 2025 é ainda maior, especialmente com o foco em inteligência artificial e sustentabilidade.
IA e ESG como diferencial competitivo
Durante o Seminário de Internacionalização Brasil-Portugal, realizado em 10 de novembro, Vinícius Lages, gerente da Unidade de Assessoria Internacional do Sebrae, conectou a trajetória de crescimento do mercado de VC aos compromissos climáticos assumidos na COP30, em Belém.
O potencial de investimentos em startups de IA é de US$ 380 bilhões, com projeção de chegar a US$ 500 bilhões em 2026. Mas há uma condição: qualidade, governança e impacto. Lages defendeu que as startups brasileiras incorporem metas ESG não como obrigação, mas como vantagem competitiva. “O que for pactuado na COP30 precisa atravessar os setores de tecnologia”, afirmou.
Ceará e Nordeste em destaque
O Ceará leva quatro startups para Lisboa: Love Technology (recrutamento de talentos em TI), Hublocal (soluções de presença digital), Soffia (gestão de escalas na saúde) e Unum Sistemas. Segundo Herbart Melo, articulador da Unidade de Gestão dos Ambientes de Inovação do Sebrae/CE, a presença reforça o amadurecimento do ecossistema local.
Inovação brasileira em setores inesperados
Enquanto a maioria das startups brasileiras concentra-se em software e serviços, há espaço para inovação em nichos. A Safe On Orbit, uma deep tech brasileira focada em monitorar tráfego espacial e evitar colisões em órbita, acaba de receber seu primeiro aporte de venture capital — 1 milhão de reais da Bossa Invest, maior gestora de VC da América Latina.
O cenário é urgente: há mais de 10 mil satélites ativos em órbita em 2025, com expectativa de triplicar até 2030. A chance de impacto entre satélites ou detritos espaciais cresce proporcionalmente. A Safe On Orbit desenvolveu um sistema de previsão de risco que orienta manobras preventivas para operadores de satélites. “Mais importante que o valor é o simbolismo: mostramos que com pouco capital já é possível girar esse setor e criar soluções reais”, afirmou Farley Ramos, analista sênior da Bossa Invest.
O que muda para o Brasil
A presença maciça no Web Summit 2025 não é apenas visibilidade. É captação de recursos, parcerias estratégicas e validação internacional. Portugal já é uma rota preferencial: o programa Road 2 Web Summit apoiará 115 startups portuguesas este ano, elevando para mais de mil o número de empresas apoiadas desde 2016. Essas startups, em conjunto, já levantaram 40 milhões de euros.
Para o Brasil, o recado é claro: o mercado global está aberto, o capital está fluindo e a hora de expandir é agora. Mas há pressão por qualidade, governança e impacto real — não apenas tecnologia pela tecnologia.
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